Ela me olha por detrás dos óculos escuros e com o seu carregado sotaque portenho me diz: "Hay gente que sí y hay gente que no".
A frase me desconcerta e eu devolvo o meu olhar, também detrás de óculos escuros, com perguntas no rosto. Estamos no parque do Retiro, na beira do lago, divagando sobre a vida. É começo da primavera e Madrid está insuportavelmente bonita. Ela continua:
"Há aqueles que baixam até bem fundo, para os porões de dentro e têm a coragem de acender a luz. De ver o que não é bonito. De tirar o lençol dos seus fantasmas e enxergar seus rostos. Tão abaixo conseguem descer, que chegam a encontrar ali o diabo andando de bicicleta, brincando em seu playground. Há gente que fez esse processo. Ou porque quis, ou porque foi obrigada, ou porque soube ser necessário, ou porque não havia outra alternativa que não encarar. E há gente que não fez. Isso não torna as pessoas melhores ou piores. Apenas as coloca no grupo dos que NÃO. Dê ouvidos e se dedique mais a gente que SIM. Não desperdice energia entregando seu melhor a quem NÃO".
Achei a definição genial. Era o que eu vinha fazendo já há algum tempo, desde que também fui lá embaixo e, com uma vela, encontrei o interruptor de luz. Mas permaneço um tanto brucutu, então jamais teria conseguido teorizar dessa forma bonita, poética e sensível assim, que é o jeito que ela sempre empacota os raciocínios.
Me pus a pensar muito sobre o tema depois disso: gente que SIM e gente que NÃO. Com a idade você se dá conta de que cuidar de si mesmo também significa cuidar melhor de seu entorno. E de quem se aproxima de você. Porque não adianta você tomar conta de si e deixar o entorno uma droga. Pessoas que NÃO geralmente se encarregam disso, de deixar tudo uma droga. Ainda que não se deem conta. E nem você.
Porque pessoas que NÃO são astutas. Elas chegam, batem na tua porta com um prato de biscoitos caseiros recém feitos, pedem para entrar. E quando você vê, se instalam ali e tomam conta de sua vida, de seu tempo, de seus ouvidos, de sua generosidade em ter aberto a porta.
Pessoas que NÃO são cheias de NÃOs. NÃO sabem ouvir. NÃO querem ser pessoas melhores porque se julgam prontas. NÃO sabem ser generosas. NÃO se colocam na pele do outro.
Os que NÃO esgotam a tua paciência de tanto que falam. Sempre de seus problemas. Que são, claro, os mais importantes. E dos seus logros. E das suas conquistas. Sempre dos seus, seus, seus.
Pessoas que NÃO têm ojeriza de estarem sozinhas. Porque, né, não desceram. Afinal, descer pressupõe um pouco de solidão e resguardo, porque a escada que te leva ao porão é estreita e só tu tem a chave. Para os que NÃO, pouco importa a qualidade. Importa a quantidade. Importa a audiência. Importa o grito histérico. Os que NÃO tem horror a silêncio porque podem ouvir o diabo, aquele mesmo, que está logo ali embaixo e a quem têm medo de olhar no rosto.
Os que NÃO tem muito pouco a aportar. Mas fingem bem, pretendendo-se inteligentes. Os que NÃO sempre vão te deixar na mão. Mas fingem bem, pretendendo-se camaradas. Os que NÃO jamais te escutam. Mas fingem bem, dizendo que o tímido é você, que nunca fala nada.
Os que NÃO, por jamais escutar os outros, ficam sempre repetindo, repetindo e repetindo-se. Gente do NÃO é chata pra caralho. É por isso que gente que NÃO tem que ter o teu NÃO de volta.
É preciso fechar os ouvidos a tanta bobagem que falam. A tanta merda que escrevem. Gente que fala o tempo todo pelos cotovelos e não entende o que é um silêncio é gente que NÃO.
Merecem teu respeito, porque gente que NÃO tem pouca maturidade emocional. Mas você tem que saber impor limites, riscar o chão, dar pouca importância e jamais tomar para si os problemas que são problemas de gente que NÃO.
Você precisa deixar entrar um monte de gente que NÃO na tua vida para dar valor aos teus que SIM. Isso é respeito contigo mesmo e isso é cultivar o teu entorno.
Nem que, no fim das contas, seja apenas meia dúzia de gentes. Daquelas que te entendem, que falam tua língua (não necessariamente teu idioma), que estão no teu time. Quem, enfim, é da tua laia. E quem não é. Assim de simples. É bom que, neste cultivo, te sobre algo como uma dúzia e não um estádio inteiro de pessoas. Com uma dúzia, tu forma um time. Com um estádio inteiro tu forma uma multidão sem rosto.
O que pode soar como arrogância, dividir entre os que SIM e os que NÃO, nada mais é do que um exercício de humanidade. Se não refletíssemos sobre nossas vidas, se não nos avaliássemos, se não quiséssemos nos entender, se não viajássemos para dentro de nós mesmos tentando descobrir quem somos, melhor que ficássemos na selva vivendo como bicho, que deve ser muito mais fácil, obrigado.
Por isso é um dever nosso descer, degrau a degrau. Acender as luzes. Olhar os fantasmas. Ver o diabo passeando de bicicleta. Nem que depois a gente volte a apagá-las. Porque uma vez que você sabe o que tem lá embaixo, percebe que "Okay, isso não é bonito, mas isso tampouco é fim do mundo. Já via tua cara e descobri que tu não passa de um fantasminha idiota e bobo. Nhé!". E volta para a cama e dorme melhor.
Quando você entra nesse processo de descobrir-se, acaba atraindo e reconhecendo ao seu entorno quem vale a pena escutar, com vale a pena "viajar", a quem vale a pena se abrir, com quem vale trocar experiências. Tu te reconhece, enfim, numa tarde de sol, em gente como ela, que é gente que SIM.

A frase me desconcerta e eu devolvo o meu olhar, também detrás de óculos escuros, com perguntas no rosto. Estamos no parque do Retiro, na beira do lago, divagando sobre a vida. É começo da primavera e Madrid está insuportavelmente bonita. Ela continua:
"Há aqueles que baixam até bem fundo, para os porões de dentro e têm a coragem de acender a luz. De ver o que não é bonito. De tirar o lençol dos seus fantasmas e enxergar seus rostos. Tão abaixo conseguem descer, que chegam a encontrar ali o diabo andando de bicicleta, brincando em seu playground. Há gente que fez esse processo. Ou porque quis, ou porque foi obrigada, ou porque soube ser necessário, ou porque não havia outra alternativa que não encarar. E há gente que não fez. Isso não torna as pessoas melhores ou piores. Apenas as coloca no grupo dos que NÃO. Dê ouvidos e se dedique mais a gente que SIM. Não desperdice energia entregando seu melhor a quem NÃO".
Achei a definição genial. Era o que eu vinha fazendo já há algum tempo, desde que também fui lá embaixo e, com uma vela, encontrei o interruptor de luz. Mas permaneço um tanto brucutu, então jamais teria conseguido teorizar dessa forma bonita, poética e sensível assim, que é o jeito que ela sempre empacota os raciocínios.
Me pus a pensar muito sobre o tema depois disso: gente que SIM e gente que NÃO. Com a idade você se dá conta de que cuidar de si mesmo também significa cuidar melhor de seu entorno. E de quem se aproxima de você. Porque não adianta você tomar conta de si e deixar o entorno uma droga. Pessoas que NÃO geralmente se encarregam disso, de deixar tudo uma droga. Ainda que não se deem conta. E nem você.
Porque pessoas que NÃO são astutas. Elas chegam, batem na tua porta com um prato de biscoitos caseiros recém feitos, pedem para entrar. E quando você vê, se instalam ali e tomam conta de sua vida, de seu tempo, de seus ouvidos, de sua generosidade em ter aberto a porta.
Pessoas que NÃO são cheias de NÃOs. NÃO sabem ouvir. NÃO querem ser pessoas melhores porque se julgam prontas. NÃO sabem ser generosas. NÃO se colocam na pele do outro.
Os que NÃO esgotam a tua paciência de tanto que falam. Sempre de seus problemas. Que são, claro, os mais importantes. E dos seus logros. E das suas conquistas. Sempre dos seus, seus, seus.
Pessoas que NÃO têm ojeriza de estarem sozinhas. Porque, né, não desceram. Afinal, descer pressupõe um pouco de solidão e resguardo, porque a escada que te leva ao porão é estreita e só tu tem a chave. Para os que NÃO, pouco importa a qualidade. Importa a quantidade. Importa a audiência. Importa o grito histérico. Os que NÃO tem horror a silêncio porque podem ouvir o diabo, aquele mesmo, que está logo ali embaixo e a quem têm medo de olhar no rosto.
Os que NÃO tem muito pouco a aportar. Mas fingem bem, pretendendo-se inteligentes. Os que NÃO sempre vão te deixar na mão. Mas fingem bem, pretendendo-se camaradas. Os que NÃO jamais te escutam. Mas fingem bem, dizendo que o tímido é você, que nunca fala nada.
Os que NÃO, por jamais escutar os outros, ficam sempre repetindo, repetindo e repetindo-se. Gente do NÃO é chata pra caralho. É por isso que gente que NÃO tem que ter o teu NÃO de volta.
É preciso fechar os ouvidos a tanta bobagem que falam. A tanta merda que escrevem. Gente que fala o tempo todo pelos cotovelos e não entende o que é um silêncio é gente que NÃO.
Merecem teu respeito, porque gente que NÃO tem pouca maturidade emocional. Mas você tem que saber impor limites, riscar o chão, dar pouca importância e jamais tomar para si os problemas que são problemas de gente que NÃO.
Você precisa deixar entrar um monte de gente que NÃO na tua vida para dar valor aos teus que SIM. Isso é respeito contigo mesmo e isso é cultivar o teu entorno.
Nem que, no fim das contas, seja apenas meia dúzia de gentes. Daquelas que te entendem, que falam tua língua (não necessariamente teu idioma), que estão no teu time. Quem, enfim, é da tua laia. E quem não é. Assim de simples. É bom que, neste cultivo, te sobre algo como uma dúzia e não um estádio inteiro de pessoas. Com uma dúzia, tu forma um time. Com um estádio inteiro tu forma uma multidão sem rosto.
O que pode soar como arrogância, dividir entre os que SIM e os que NÃO, nada mais é do que um exercício de humanidade. Se não refletíssemos sobre nossas vidas, se não nos avaliássemos, se não quiséssemos nos entender, se não viajássemos para dentro de nós mesmos tentando descobrir quem somos, melhor que ficássemos na selva vivendo como bicho, que deve ser muito mais fácil, obrigado.
Por isso é um dever nosso descer, degrau a degrau. Acender as luzes. Olhar os fantasmas. Ver o diabo passeando de bicicleta. Nem que depois a gente volte a apagá-las. Porque uma vez que você sabe o que tem lá embaixo, percebe que "Okay, isso não é bonito, mas isso tampouco é fim do mundo. Já via tua cara e descobri que tu não passa de um fantasminha idiota e bobo. Nhé!". E volta para a cama e dorme melhor.
Quando você entra nesse processo de descobrir-se, acaba atraindo e reconhecendo ao seu entorno quem vale a pena escutar, com vale a pena "viajar", a quem vale a pena se abrir, com quem vale trocar experiências. Tu te reconhece, enfim, numa tarde de sol, em gente como ela, que é gente que SIM.
12 comentários:
Nossa...e como me fez refletir esse texto.As definições/teorias de sua amiga são ótemas.
Quando descemos ao nosso porão, a gente se depara com muita coisa feia.Mas também pode encontrar coisas lindas que nem sabíamos ter.
Com uma dúzia, tu forma um time. Com um estádio inteiro tu forma uma multidão sem rosto.
CAco, te amo.
Fazia tempo que não vinha aqui. Ando numa intensa fase SIM. Por consequência, um tanto isolada no meu porão, vasculhando as coisas mais vergonhosas, tentando entendê-las e transmutá-las. Pelo visto, também estás. SIM, te amo. ; )
Oi Caco tdo bem? Sempre passo por aqui, mas nunca comento.
Poxa mas esse texto falou tanto comigo, que ficou impossível não registrar algo.
Tentando complementar todas as colocações feitas, eu diria que quando chegamos ao fundo do posso tem uma mola que nos impulsiona para cima.
belo texto
Abraços
caco, caco, seu danado. adoro você à distância.
beijo,
carol, do finado nada profissional
Hey, presente!
Eu sou gente que sim.
Já vai fazer um ano.
E é horrível e dói pra caralho.
Sim, me arrependo de não ter feito antes.
Quanto mais esperamos, maiores são as dores.
Saudades.
:)
Belo texto. Em 2011 me propus a entrar no SIM total, fiz curso de eneagrama, dei liberdade a mim mesmo de dizer não a tantas coisas que eu já estava habituado. E, cara, como isso me fez bem. Estou no SIM ainda e descendo cada vez mais, mas já pude ver muitas coisas que nem imaginava existirem. Isso tudo nos dá outra perspectiva sobre tantas coisas e pessoas, e entre elas, sobre nós mesmos. Inspirador o texto, vou compartilhar com outros SIM que andei conhecendo por ae! Abraço...
Marco,
É a Tati Vaz, que há anos vc conheceu meio que sem querer numa redação qualquer. Lembra?
Estava lendo uma coisa tua no site, de lá fui pra outro lugar e, por fim, parei no teu blog. Assim, meio sem querer também. Não costumo ler blogs, pra ser bem sincera, e estou numa puta correria aqui no trabalho enquanto te escrevo, mas não posso deixar de comentar o quanto, a cada linha, esse teu texto foi mexendo comigo, minhas ideias, minhas entranhas. Achei lindo, tudo. Achei você lindo, todo, como nunca tive oportunidade de achar antes pelas nossas correrias sem sentido pelo mundo.
Obrigada por me mostrar a beleza de tudo isso – a minha, a tua, a do post – e por falar de uma maneira tão singela a mesma coisa que penso sobre pessoas, sem saber como expressar.
Beijos,
tati
oi
não sei como cheguei aqui!
sei que adorei sua escrita e fico voltando na esperança de novos textos.
gracias!
cheguei aqui pelo facebook da mayumi que comentou já também. não conheço você, autor, mas gostei demais do texto. o tema enfeitou ele, mas a escrita em si e por si é estupenda! parabéns e agradecida.
Olá, eu tb cheguei aqui por acaso.. Tb sou amiga da Mayumi, mas cheguei aqui pela Noz Moscando.. rs..:)
Vc diz que jamais conseguiria falar de forma tao bonita e poética como sua amiga, mas conseguiu, da sua forma, transformar uma linda e simples frase num lindíssimo texto! Adorei! Viva as pessoas que SIM!! Um abraco, Lua
Que texto incrível. Parabens.
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