Sou dessas pessoas que não gostam de carnaval.Tenho a
impressão de que ele é uma mentira tão bem construída que ninguém mais se dá
conta do quanto sem sentido é. Afinal, não. há. razão. que. explique. um ser
humano levantar-se da cama, vestir um colar de havaiana (ou uma tiara de
antenas. Ou uma peruca. Ou uma máscara), ir pra rua e, do nada, começar a
pular. Às nove da manhã! Desculpe, mas não há.
As vezes em que participei de alguma manifestação de
carnaval não foram exatamente os momentos mais felizes da minha vida. Há alguns
anos fui passar no Rio de Janeiro e achei que o problema era eu. Ano passado
fui de novo para levar amigos da gringa. Tão logo eu botei os pés na cidade (um
milhão de graus, um milhão de pessoas te empurrando e um milhão de horas para
chegar a qualquer lugar) eu dei chilique: decretei que seria o último carnaval
da minha vida. Queria pegar uma fantasia de Maga Patalógica e de lá sair voando
em uma vassoura direto pra Lapônia.
Ver um desfile na Sapucaí, vá lá, tem um encanto particular.
Ainda assim, um monte de problemas. Cada escola constrói todo um enredo de uma
história, mas ninguém nunca sabe direito qual é. Tu tem que ficar fruindo o desfile
e tentando entender o que a Grécia antiga (sempre tem um carro com a Grécia
antiga) tem a ver com a popularização do leite (exemplo tirado de um desfile do
ano passado). Chegar ao sambódromo é um horror, as arquibancadas são um
amontoado de gente se espremendo e depois do primeiro desfile tu já te cansa.
Claro que a qualidade técnica das escolas muda e umas são bem melhores do que
as outras. Mas, enfim, depois de um desfile meio que já deu, né?
E daí tem o carnaval de rua, que é aquela coisa que eu comentei,
de você ir para a rua e pular feito uma rã bêbada. É absolutamente
constrangedor, extremamente desagradável e me parece, sinceramente, algo meio
forçado. Tenho a impressão de que todo mundo quer ir embora dali, mas ninguém
tem coragem. Talvez até faça sentido para quem cresceu sendo levado em fantasia
de Batman para a rua. Mas para quem não, duvido.
Isso sem entrar na parte escatológica do carnaval: banheiros
imundos, ruas fedendo a mijo e um calor que nos faz voltar a ser bichos. Como
cereja do bolo temos ainda a logística. Cinquenta por cento do tempo você passa
combinando onde vai se encontrar com os amigos e sempre (SEMPRE) vai ter alguém
que se perdeu. Que não chegou. Que não encontrou o ponto de referência porque
ele sumiu no meio da multidão. Ninguém se encontra e você fica com TOC nos
dedos de tanto digitar mensagem. Não vejo diversão nisso.


