terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A verdade sobre a diversão (sqn) do Carnaval



Sou dessas pessoas que não gostam de carnaval.Tenho a impressão de que ele é uma mentira tão bem construída que ninguém mais se dá conta do quanto sem sentido é. Afinal, não. há. razão. que. explique. um ser humano levantar-se da cama, vestir um colar de havaiana (ou uma tiara de antenas. Ou uma peruca. Ou uma máscara), ir pra rua e, do nada, começar a pular. Às nove da manhã! Desculpe, mas não há.

As vezes em que participei de alguma manifestação de carnaval não foram exatamente os momentos mais felizes da minha vida. Há alguns anos fui passar no Rio de Janeiro e achei que o problema era eu. Ano passado fui de novo para levar amigos da gringa. Tão logo eu botei os pés na cidade (um milhão de graus, um milhão de pessoas te empurrando e um milhão de horas para chegar a qualquer lugar) eu dei chilique: decretei que seria o último carnaval da minha vida. Queria pegar uma fantasia de Maga Patalógica e de lá sair voando em uma vassoura direto pra Lapônia.

Ver um desfile na Sapucaí, vá lá, tem um encanto particular. Ainda assim, um monte de problemas. Cada escola constrói todo um enredo de uma história, mas ninguém nunca sabe direito qual é. Tu tem que ficar fruindo o desfile e tentando entender o que a Grécia antiga (sempre tem um carro com a Grécia antiga) tem a ver com a popularização do leite (exemplo tirado de um desfile do ano passado). Chegar ao sambódromo é um horror, as arquibancadas são um amontoado de gente se espremendo e depois do primeiro desfile tu já te cansa. Claro que a qualidade técnica das escolas muda e umas são bem melhores do que as outras. Mas, enfim, depois de um desfile meio que já deu, né?

E daí tem o carnaval de rua, que é aquela coisa que eu comentei, de você ir para a rua e pular feito uma rã bêbada. É absolutamente constrangedor, extremamente desagradável e me parece, sinceramente, algo meio forçado. Tenho a impressão de que todo mundo quer ir embora dali, mas ninguém tem coragem. Talvez até faça sentido para quem cresceu sendo levado em fantasia de Batman para a rua. Mas para quem não, duvido.

Isso sem entrar na parte escatológica do carnaval: banheiros imundos, ruas fedendo a mijo e um calor que nos faz voltar a ser bichos. Como cereja do bolo temos ainda a logística. Cinquenta por cento do tempo você passa combinando onde vai se encontrar com os amigos e sempre (SEMPRE) vai ter alguém que se perdeu. Que não chegou. Que não encontrou o ponto de referência porque ele sumiu no meio da multidão. Ninguém se encontra e você fica com TOC nos dedos de tanto digitar mensagem. Não vejo diversão nisso.

O carnaval para mim é um grande delírio coletivo. O sol que bate na nossa cabeça pode ser a explicação.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Like the drip, drip, drip of the beer drops

 Moço, está pingando água do seu casaco.
O "moço", no caso, era eu.
A "água", na verdade, era cerveja.

Estamos no aeroporto de Madrid, voltando para Londres, e esse desconhecido na fila de embarque me avisa que estou pingando. Por quê? Voltemos a cena dez minutos antes para entender o drama. 

Meus amigos e eu estávamos tomando uma cerveja no portão de embarque. Todos já tinham terminado as suas e eu recém tinha aberto a segunda quando nos chamaram para entrar para o avião. Como não me deixariam embarcar com cerveja, então eu tive a ótima ideia (só que não) de colocar a latinha na toca do casaco que eu tinha em mãos. Andando com calma, não teria problema. A lata não iria virar. Né?

Só que o meu cartão de embarque caiu no chão. Quando eu vi que isso aconteceu, foi instantâneo: esqueci a cerveja e me agachei para juntar. A lata virou dentro da toca sem que eu percebesse e a próxima coisa que sei é que tinha uns bons duzentos eme-éles de cerveja na toca do meu casaco. Nem eu e nem meus amigos percebemos. Foi esse moço que me avisou sobre a... "água" que pingava. Não havia nada que fizesse a goteira parar porque era um casaco de lã. Primeiro morri de vergonha, mas logo pensei que precisava bolar um plano para que me deixassem embarcar ungido em cerveja. 

Bom, se o outro acreditou ser água, por que não acreditaria a espanhola ultramaquiada que recolhia os cartões de embarque? Fiz um contorno de corpo, botei a mochila na frente, um outro amigo foi caminhando comigo no lado e, pronto, passei. Ninguém notou. 

Só que o "finger", aquela passarela que leva até a porta do avião, ficou congestionado de passageiros e precisamos ficar parados um tempo lá dentro. Enquanto isso o bodum de cerveja se espalhava pelo corredor e as pessoas começaram a perceber. Eu estava parecendo uma cervejaria sobre duas pernas. 

Além disso, olho para trás e vejo a cena do crime, mais evidente impossível. Sabe aquele conto de João e Maria, que jogavam farelos de pão na floresta para saber como encontrar o caminho de volta pra casa? Então, eu fiz isso também. Só que com cerveja (que, em todo o caso, é igual a pão, só que líquido). É que como o casaco era de lã, o líquido continuava saindo. Fui literalmente PINGANDO cerveja da porta de embarque até o meu assento. 

Já sentado na poltrona, com fedentina de bêbado em fim de festa e com as mãos pegajosas, me dei conta que isso pode ter sido uma armadilha do meu inconsciente. Tal como na história de João e Maria, talvez eu quisesse, sim, deixar uma trilha. É uma forma de eu ter certeza de que sempre saberei o caminho que me leva de volta a Madrid. 

Repare no chão. Toda a 'crasse' de se embarcar aspergindo cerveja pelo corredor. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O tempo não para

O tempo é relativo. Cada vez que alguém pronuncia essa frase, Einstein tem espasmos em seu além-vida e depois mostra a língua. 

Em Oxford somos lembrados constantemente da relatividade do tempo porque ele é contado de maneira distinta. O ano, por exemplo. Ele não começa em janeiro, mas sim em outubro, quando iniciam as aulas. Aliás, esqueçamos os nomes dos meses. Aqui não existe esse conceito. Agrupa-se os dias em "terms", que duram nove semanas. As semanas de cada "term" são chamadas assim mesmo: semana um, semana dois, semana três.

Já os "terms" recebem nomes. O primeiro é o Michaelmas (homenagem ao dia de São Miguel Arcanjo, 29 de setembro, que marca o equinócio e o fim da colheita - oi? - no Hemisfério Norte). Depois temos o Hilary Term (que para mim é a imagem de uma senhôura com colar de pérolas e cabelo trabalhado no laquê, igual à Clinton). E por fim há o Trinity, que termina em junho.  

É em cima dessa lógica que se conta a vida por essas bandas. Você não ouve uma construção de frase do tipo "O trabalho precisa ser entregue no dia 15", ou "Vai rolar uma festa dia 2 de março". Ao invés disso, fala-se coisas como "Entreguem o artigo na sexta-feira da quinta semana do Hilary". Acho que nunca ouvi meus professores pronunciarem qualquer mês do ano. Ou mesmo falarem em dias. Pessoas como eu, que mal sabem se organizar num bom e velho calendário solar, passam por um bocado de trabalho. 

A parte difícil dessa organizção de tempo - além de ter que aprender a contar a vida diferente - é que as semanas são puxadas. Durante o período de aula, ficamos praticamente internados dentro da universidade. Aliás, temos que seguir uma regra: durante o "term" somos obrigados a dormir na cidade, ou no máximo a um raio de 25 quilômetros do centro - sim, existe essa cláusula. 

A parte ótima dessa história de Michaelmas e Hilaries é que entre um "term" e outro, temos seis semanas de férias – que se chamam assim mesmo, férias. 

Seis semanas você acha que é tempo suficiente para fazer muita coisa. Mas descobre que dá para fazer ainda mais. No meu caso, uma viagem a Madrid (para onde eu disse que não voltaria tão cedo, mas menti). Depois um roteiro de carro pelo interior da Inglaterra e Escócia (viajando sem rumo definido, bem do jeito que eu gosto). E terminei indo para Praga e Berlin passar o ano novo. 

O fato é que foi tudo muito rápido. Quando me dei conta, foi-se o Michalemas, se foram as férias e o Hilary está a pleno vapor. Aqui em Oxford, além de confirmar que tempo é relativo, também temos a certeza de outra coisa: não importa como o contemos, ele voa.
Calendário. Oxford style. 

sábado, 13 de outubro de 2012

Matriculation Day


'Gowned'

A primeira coisa que aprendo em Oxford é que o meu não é o maior de todos. Mas também não é o menor. É mediano. “Os maiores são dos doutores”, me explica o senhorzinho, caprichando nos trejeitos. “O dos mestrandos vai só até o joelho”.

O tal senhor é vendedor da loja onde eu estava comprando meu ‘gown’. É assim que chamam aqui aquela capa preta que se usa para formatura. Só que em Oxford os gowns também são usados durante o ano acadêmico. O tamanho da capa mostra qual é o seu grau dentro da 'cadeia evolutiva' da universidade. A que corresponde a mim vai até o joelho porque sou mestrando. A dos alunos da graduação chega só até a cintura. Os doutores são cobertos de glória: a capa vai do ombro ao calcanhar.

Além do gown, também temos que ter vários outros trajes no guarda roupa para usá-los de acordo com a ocasião e o grau de hierarquia de quem está conosco. O código de vestimenta é tão específico que tem até uma entrada na Wikipedia.

A primeira vez que precisamos nos paramentar foi para o Matriculation Day, ritual em que seríamos oficialmente aceitos como membros da Universidade de Oxford. O deste ano aconteceu neste sábado, dia 13. Infelizmente, como a tal capa não tem nenhum dispositivo para nos fazer voar, fomos todos a pé até o Sheldonian Theater, onde seria a cerimônia.

Andar usando uma capa preta até o joelho não é o jeito mais fácil de se caminhar. Mas é ainda pior se tu estiver molhado. Com o clima estável que faz na Inglaterra (#NOT), é óbvio que choveu. Não muito, mas o suficiente atacar meus pulmões. E me deixar parecido a um pinguim encharcado entrando num teatro medieval.

O chanceler da universidade começou a cerimônia em latim (afinal, falar línguas vivas é muito mainstream) e eu, já de cara, dei sinais de que estava por lá também: passei a tossir mais do que vaca magra. Os alunos em silêncio, o reitor gastando sua fluência em línguas do século 5 a.C e eu retumbando meus pulmões pra galera. Simplesmente perdi o controle da coisa. Porque você sabe, né? Depois que se começa uma tosse alérgica, não há como pará-la. E sua força é proporcional: quanto mais necessidade de silêncio, mais alta ela é.

A amiga italiana, sentada no outro lado do teatro foi solidária: o celular dela caiu ao chão e fez um ruído estrondoso. Já somos dois interrompendo a solenidade. Logo, alguém de outra parte do salão também tosse. E somos três. 

Rolou uma reação em cadeia e o teatro virou uma "tosseiria" coletiva e ordenada. Éramos quatro os que tossíamos oficialmente, revezando-nos na função. E uns outros cinco faziam participações ocasionais, mas sempre ritmadas: quando um tossedor parava, outro começava. 

Cheguei a me perguntar se aquilo não estaria sendo feito de propósito, numa espécie de brincadeira inventada na hora (o que teria sido bem divertido) ou se era só tosse mesmo (de minha parte foi só tosse, juro). Achei que em algum momento o chanceler fosse se incomodar, parar o discurso e expulsar os 'tossedores'. Ou melhor: apontar um anel de ouro em nossa direção e nos transformar em gárgulas.

Mas chanceleres não fazem isso. Ao invés de apontar um anel mágico, ele mostrou como se dá um recado com elegância:

“... lembrem-se sempre dos grandes nomes que já passaram por esta Universidade. Eles também um dia estiveram sentados nos mesmos bancos que vocês – e provavelmente também tossiram tanto quanto vocês.”

De nossa parte, só tenho uma coisa a dizer em favor dos mestrandos que tossem. Podemos não ter as maiores capas. Mas sabemos fazer bastante barulho.


A cerimônia do Matriculation Day

domingo, 30 de setembro de 2012

De Almodóvar a Harry Potter

Doña Blanca não fez questão de esconder que estava irritadíssima com o atraso dos latinos que iriam alugar seu apartamento. Seu corpo inteiro falava: a testa franzida, o beiço de três metros e um olhar que disparava raios laser. Mas caso houvesse ainda alguma dúvida, ela disse também com palavras: “Porra, vós estais meia hora atrasados”. Porque, né, espanhóis usam pronomes pessoais seculares e “porra” numa mesma frase. 

Estamos na Espanha, início de 2011, recém chegados para um programa de jornalistas latinos em Madrid. Aquele dia, eu e mais três amigos assinaríamos o contrato para alugar o apartamento de Doña Blanca. 

Ela não estava sozinha. Também veio o marido. E o irmão do marido. E a mulher do irmão do marido. Como era a primeira vez que alugavam a casa, fizeram uma caravana para nos conhecer, nos abraçar, bater papo e dar algumas recomendações. Não sei se é coisa de família, mas desenvolveram a técnica de falar sem respirar. Cada um dos quatro contou a história de suas vidas. Ao mesmo tempo. Usando vozes e mãos. 

Foi meia hora de hi hi his, ha ha has e muitas revoadas de braços pra lá e pra cá, até alguém lembrar do falecido pai e da falecida mãe. Silêncio. Um dos irmãos começa a contar a história dos velhinhos. Embarga a voz. Logo os hihihis se transformaram em buááás buáááás.   

De repente você se vê diante da situação surreal de ter na sua frente quatro desconhecidos chorando e não saber o que fazer. Eu, único brazuca da turma, dei como fato consumado que não caberia a mim consolar em castelhano. Em sendo um inútil, fiz a minha parte: juntei-me ao coro. #todoschora. Lenço, alguém?

Depois de uma hora mais (metade dela rindo, metade chorando), eles foram embora. Doña Blanca, não. Doña Blanca ficou. Voluntariou-se (sem que pedíssemos) para ir ao supermercado fazer compras conosco. Em cortejo, ela à frente, fomos ao supermercado. Manejando o carrinho de compras, Doña Blanca indicava os produtos com melhor custo-benefício. Proibiu-me de comprar outro óleo que não o da marca preferida dela, ensinou-me a escolher peixes e tirou a água engarrafada das minhas mãos, dizendo que "aqui na Espanha não se gasta com essas coisas. Se toma da torneira". E ainda deu uma piscadela marota de quem acaba de ensinar um xóvem latino a economizar um euro na garrafa de água. 

Doña Blanca e sua trupe foram apenas os primeiros dos inúmeros personagens que nos mostraram essa Espanha passional, colorida, exagerada e barulhenta que dali por diante veríamos diariamente. Sempre que eu colocava o pé fora de casa, tinha a impressão de estar entrando num filme de Almodóvar.

No fim do ano passado, voltei ao Brasil e - com muito pesar - coloquei fim à fase almodovariana. Na época eu não sabia, mas seria apenas um pequeno hiato antes de vir de novo para o outro lado do Atlântico. Desta vez, ao invés de Espanha, vim para a Inglaterra fazer um mestrado na Universidade de Oxford. 

Saí do Brasil sem sustos, sabendo que seria tranquilo me adaptar novamente a um outro país. Mas quando desci do táxi e parei com minhas duas malas na frente de uma porta gótica do college onde morarei no próximo ano (foto abaixo), eu percebi que não seria bem assim. Estava chegando a um cenário muito contrastante com aquele da Espanha. 

Nesta que é a segunda universidade mais antiga do mundo (foi fundada no ano de 1096), as coisas parecem funcionar de maneira muito particular. Muitas das tradições da era medieval são mantidas, como a estrutura de colegiados, as cerimônias de aceitação e a obrigação de vestir-se com capas pretas durante jantares em que o toque de um sino e uma ladainha em latim abrem os trabalhos. Nesse mundo, não se grita. Nesse mundo, fala-se com a boca e não com o corpo inteiro. Nesse mundo, os palavrões ficam no subentendido. Nesse mundo eu também me levanto todos os dias tendo a impressão de que estou dentro de um filme. Só que não de Almodóvar, mas de Harry Potter.

É para registrar essas particularidades que eu volto a escrever no meu brógue. Quero partilhar aqui a vida oxfordiana que fará deste ano um dos anos mais (só daqui a algum tempo saberei o adjetivo que devo inserir aqui) da minha vida. Enquanto espero pelos adjetivos, sigo perguntando e escrevendo.