Combinamos assim: 5 da tarde, na frente do lago, no lado direito da estátua do cavalo. Igualzinho ao que havíamos feito nove meses antes. Também ficou acordado que compraríamos cervejas no quiosque e que nos sentaríamos naquele quadrilátero de grama longe dos casais e das crianças brincando, "que isso me irrita". Faríamos o mesmo roteiro que havíamos percorrido na primeira vez que saímos em Madrid. Com a diferença de que aquela seria a última.
No dia seguinte eu embarcaria ao Brasil, colocando um fim ao período mais maluco, intenso e feliz da minha vida. Ainda tinha duas malas para terminar de arrumar, mas estava muito mais preocupado em organizar a outra mala. Aquela das memórias. Queria revisitar as emoções, os fatos, os lugares e as pessoas que fizeram parte deste fragmento de vida e de tempo em que morei ali.
Há nove meses eu havia chegado sem saber direito o que queria. E, ao mesmo tempo, querendo um monte de coisas: dar uma pausa na rotina, ganhar novo fôlego, voltar a me surpreender, ser desafiado, ampliar meu mundo, conhecer gentes. Queria me provar que, apesar de ter construído já um mundo muito confortável, era possível começar tudo de novo.
E começar de novo dá um monte de trabalho, hein? Passa por coisas das mais triviais, como comprar um novo celular (de nove dígitos, que demorei meses para decorar), encontrar uma casa para morar (sempre escolha uma perto do metrô), uma nova padaria favorita (e uma nova guloseima favorita dentro da padaria), um novo bar (e um dono de bar que te conheça pelo nome). E passa por coisas mais complicadas também, como ter de ir ao plantão médico sozinho (e lembrar como se diz em castelhano coisas do tipo “torci o pé”, “tornozelo”, “calcanhar” “faixa gaze”, e "devo encomendar meu enterro?").
Começar de novo também dá medo. Medo de não se adaptar à cultura, medo de sentir saudades, medo de perder a conexão com os amigos que deixou no seu país. No meu caso, medo também de começar a trabalhar num ritmo de jornal, num país diferente e escrevendo num outro idioma.
É desses medos, dessas confusões iniciais e das inseguranças que me lembrava neste fim de tarde no Retiro. Tudo a partir de agora vai ter reflexos do que foi esse meu tempo na Espanha e de como elaborei esses medos e desafios. Volto com tatuagens deste passado. Porque em Madrid eu fui aprendiz. E você sempre tem a ganhar quando se coloca na condição de aprendiz. É por isso que minha bagagem voltaria cheia.
Levo todas as tardes de sol atirado em algum parque, ou em algum bar, ou em algum colchão.
Levo o hábito de tomar rum em festas. De ser chato na escolha dos presuntos. De beliscar azeitonas e comer croquetes durante um chope.
Levo os encontros com amigos depois do trabalho - sempre há espaço para uma caña no fim do dia. Levo as viagens de fins de semana: Grécia, Irlanda, Marrocos. Holanda duas vezes. França também. Até em Andorra fomos parar. Espanha inteira, de cima a baixo. De leste a oeste. Mentira, faltou Granada.
Levo tiques do castelhano que demorarei a perder, como “joder”, “tampoco”, “coño” e a mania de acrescentar um “é” pedante no final das frases. Levo o ouvido treinado para as sutilezas do sotaque e saber, de ouvido, se alguém é do Equador ou do México. Ou se é andaluz ou galego. E toda vez que ouvir um venezuelano falar com aquele s aspirado, é a voz de Mirelis, minha roomie, que eu vou ouvir.
Levo algumas pessoas que já fazem parte do grupo de meus melhores amigos. Levo meus ex-colegas e amigos, que serão vizinhos de país, mas sobretudo vizinhos de vida. A América Latina passou a ser um pueblo.
Levo a vivência de grandíssimas enrascadas, grandíssimos bolas-fora e gafes a granel. Levo novos significados para o sentido de liberdade. De viver bem. De se querer mais. De pegar mais leve consigo e com os outros.
É tudo isso que levaria em minha mala imaginária quando partiria no dia seguinte, nove meses depois de ter chegado. Uma quantidade de tempo simbólica, penso, porque é o suficiente para gerar uma vida.
Com esses pensamentos todos na cabeça, não nos demos conta de que havia escurecido. Começava minha última noite. E seria uma que eu não dormiria. Seguiríamos, depois, para uma festa que apelidamos de “La fiesta de la pérdida del avión”. Uma alusão ao fato de que, em partindo meu vôo às 10 da manhã de domingo, e em eu passando a noite na balada, faça as contas você: é óbvio que eu não conseguiria embarcar.
E foi quase por aí mesmo. Às seis da manhã, depois de mil chopes e vários copos de rum com 'Goga Gola', eu chego à casa emprestada e vejo que minhas malas estavam por serem feitas. Com tempo de menos e roupas demais para empacotar, agi como um ser humano maduro e controlado age: sentei no chão e comecei a chorar.
Mimimimimi.Para isso servem os amigos. Enquanto uma foi fazer coro comigo no chão do quarto, o outro começou a empacotar tudo o que via pela frente e do jeito que dava. Alguém me botou dentro do táxi. Ainda bêbado, cheguei ao aeroporto de Barajas com minhas duas malas. E fui DIRETO para o portão de embarque. Sem fazer check-in.
Nove meses na Espanha e eu passei a ser o próprio enredo de Almodóvar. Tragicomédia mode: on.
O guarda me mandou fazer o check-in e eu não conseguia encontrar o balcão da TAP. Só parei o amontoado de trapalhadas que vieram na sequência quando sentei, finalmente, na minha poltrona.
Quando o avião se coloca em posição de decolagem, começo a ouvir a música que eu havia elegido para ser a última. Vou de Sabina, esse pirata safado que sempre entende as coisas e as traduz da maneira mais pungente.
Ele canta “al lugar donde has sido feliz, no debieras tratar de volver”. O avião começa a rolar pela pista e logo as ruas da cidade ficam pequenas. O sol já está alto lá fora e eu, que odeio me despedir, me obrigo a fazê-lo. Não será um "até logo", porque vou embora sabendo que não devo (e nem quero) voltar tão cedo. Mas também me recuso a dizer um "adeus", porque me soa muito fatídico.
Vou embora entendendo que partir, voltar, ficar, são estados de espíritos. Você pode estar em um lugar, mas já ter partido. Assim como pode já ter ido embora, mas ficar sempre ali. Que pode você estar longe, estando ao lado.
Dentro desse organismo vivo que é uma cidade como Madrid, estará escrita um pouco da minha história. E as histórias que viverei a partir de agora vão ter um pouco dela também.
Morto de sono, olho para baixo uma última vez e, antes de adormecer, consigo lançar desde as nuvens o meu reconhecimento e minha despedida.
Gracias, Madrid. Y hasta siempre!