Thursday, December 1, 2011

Te dejo, Madrid

Combinamos assim: 5 da tarde, na frente do lago, no lado direito da estátua do cavalo. Igualzinho ao que havíamos feito nove meses antes. Também ficou acordado que compraríamos cervejas no quiosque e que nos sentaríamos naquele quadrilátero de grama longe dos casais e das crianças brincando, "que isso me irrita". Faríamos o mesmo roteiro que havíamos percorrido na primeira vez que saímos em Madrid. Com a diferença de que aquela seria a última.

No dia seguinte eu embarcaria ao Brasil, colocando um fim ao período mais maluco, intenso e feliz da minha vida. Ainda tinha duas malas para terminar de arrumar, mas estava muito mais preocupado em organizar a outra mala. Aquela das memórias. Queria revisitar as emoções, os fatos, os lugares e as pessoas que fizeram parte deste fragmento de vida e de tempo em que morei ali.

Há nove meses eu havia chegado sem saber direito o que queria. E, ao mesmo tempo, querendo um monte de coisas: dar uma pausa na rotina, ganhar novo fôlego, voltar a me surpreender, ser desafiado, ampliar meu mundo, conhecer gentes. Queria me provar que, apesar de ter construído já um mundo muito confortável, era possível começar tudo de novo.

E começar de novo dá um monte de trabalho, hein? Passa por coisas das mais triviais, como comprar um novo celular (de nove dígitos, que demorei meses para decorar), encontrar uma casa para morar (sempre escolha uma perto do metrô), uma nova padaria favorita (e uma nova guloseima favorita dentro da padaria), um novo bar (e um dono de bar que te conheça pelo nome). E passa por coisas mais complicadas também, como ter de ir ao plantão médico sozinho (e lembrar como se diz em castelhano coisas do tipo “torci o pé”, “tornozelo”, “calcanhar” “faixa gaze”, e "devo encomendar meu enterro?").

Começar de novo também dá medo. Medo de não se adaptar à cultura, medo de sentir saudades, medo de perder a conexão com os amigos que deixou no seu país. No meu caso, medo também de começar a trabalhar num ritmo de jornal, num país diferente e escrevendo num outro idioma.

É desses medos, dessas confusões iniciais e das inseguranças que me lembrava neste fim de tarde no Retiro. Tudo a partir de agora vai ter reflexos do que foi esse meu tempo na Espanha e de como elaborei esses medos e desafios. Volto com tatuagens deste passado. Porque em Madrid eu fui aprendiz. E você sempre tem a ganhar quando se coloca na condição de aprendiz. É por isso que minha bagagem voltaria cheia.

Levo todas as tardes de sol atirado em algum parque, ou em algum bar, ou em algum colchão.

Levo Joaquin Sabina, grande cantautor. E também Ana Belen, Manuel Serrat, Pablo Milanes, Calamaro.

Levo o hábito de tomar rum em festas. De ser chato na escolha dos presuntos. De beliscar azeitonas e comer croquetes durante um chope.

Levo os encontros com amigos depois do trabalho - sempre há espaço para uma caña no fim do dia. Levo as viagens de fins de semana: Grécia, Irlanda, Marrocos. Holanda duas vezes. França também. Até em Andorra fomos parar. Espanha inteira, de cima a baixo. De leste a oeste. Mentira, faltou Granada.

Levo tiques do castelhano que demorarei a perder, como “joder”, “tampoco”, “coño” e a mania de acrescentar um “é” pedante no final das frases. Levo o ouvido treinado para as sutilezas do sotaque e saber, de ouvido, se alguém é do Equador ou do México. Ou se é andaluz ou galego. E toda vez que ouvir um venezuelano falar com aquele s aspirado, é a voz de Mirelis, minha roomie, que eu vou ouvir.

Levo algumas pessoas que já fazem parte do grupo de meus melhores amigos. Levo meus ex-colegas e amigos, que serão vizinhos de país, mas sobretudo vizinhos de vida. A América Latina passou a ser um pueblo.

Levo a vivência de grandíssimas enrascadas, grandíssimos bolas-fora e gafes a granel. Levo novos significados para o sentido de liberdade. De viver bem. De se querer mais. De pegar mais leve consigo e com os outros.

É tudo isso que levaria em minha mala imaginária quando partiria no dia seguinte, nove meses depois de ter chegado. Uma quantidade de tempo simbólica, penso, porque é o suficiente para gerar uma vida.

Com esses pensamentos todos na cabeça, não nos demos conta de que havia escurecido. Começava minha última noite. E seria uma que eu não dormiria. Seguiríamos, depois, para uma festa que apelidamos de “La fiesta de la pérdida del avión”. Uma alusão ao fato de que, em partindo meu vôo às 10 da manhã de domingo, e em eu passando a noite na balada, faça as contas você: é óbvio que eu não conseguiria embarcar.

E foi quase por aí mesmo. Às seis da manhã, depois de mil chopes e vários copos de rum com 'Goga Gola', eu chego à casa emprestada e vejo que minhas malas estavam por serem feitas. Com tempo de menos e roupas demais para empacotar, agi como um ser humano maduro e controlado age: sentei no chão e comecei a chorar.

Mimimimimi.

Para isso servem os amigos. Enquanto uma foi fazer coro comigo no chão do quarto, o outro começou a empacotar tudo o que via pela frente e do jeito que dava. Alguém me botou dentro do táxi. Ainda bêbado, cheguei ao aeroporto de Barajas com minhas duas malas. E fui DIRETO para o portão de embarque. Sem fazer check-in.

Nove meses na Espanha e eu passei a ser o próprio enredo de Almodóvar. Tragicomédia mode: on.

O guarda me mandou fazer o check-in e eu não conseguia encontrar o balcão da TAP. Só parei o amontoado de trapalhadas que vieram na sequência quando sentei, finalmente, na minha poltrona.

Quando o avião se coloca em posição de decolagem, começo a ouvir a música que eu havia elegido para ser a última. Vou de Sabina, esse pirata safado que sempre entende as coisas e as traduz da maneira mais pungente.

Ele canta “al lugar donde has sido feliz, no debieras tratar de volver”. O avião começa a rolar pela pista e logo as ruas da cidade ficam pequenas. O sol já está alto lá fora e eu, que odeio me despedir, me obrigo a fazê-lo. Não será um "até logo", porque vou embora sabendo que não devo (e nem quero) voltar tão cedo. Mas também me recuso a dizer um "adeus", porque me soa muito fatídico.

Vou embora entendendo que partir, voltar, ficar, são estados de espíritos. Você pode estar em um lugar, mas já ter partido. Assim como pode já ter ido embora, mas ficar sempre ali. Que pode você estar longe, estando ao lado.

Dentro desse organismo vivo que é uma cidade como Madrid, estará escrita um pouco da minha história. E as histórias que viverei a partir de agora vão ter um pouco dela também.

Morto de sono, olho para baixo uma última vez e, antes de adormecer, consigo lançar desde as nuvens o meu reconhecimento e minha despedida.

Gracias, Madrid. Y hasta siempre!

Tuesday, July 26, 2011

Gente que SIM e gente que NÃO

Ela me olha por detrás dos óculos escuros e com o seu carregado sotaque portenho me diz: "Hay gente que sí y hay gente que no".

A frase me desconcerta e eu devolvo o meu olhar, também detrás de óculos escuros, com perguntas no rosto. Estamos no parque do Retiro, na beira do lago, divagando sobre a vida. É começo da primavera e Madrid está insuportavelmente bonita. Ela continua:

"Há aqueles que baixam até bem fundo, para os porões de dentro e têm a coragem de acender a luz. De ver o que não é bonito. De tirar o lençol dos seus fantasmas e enxergar seus rostos. Tão embaixo conseguem descer, que chegam a encontrar ali o diabo andando de bicicleta, brincando em seu playground. Há gente que fez esse processo. Ou porque quis, ou porque foi impelida, ou porque soube ser necessário, ou porque não havia outra alternativa que não encarar. E há gente que não fez. Isso não torna as pessoas melhores ou piores. Apenas as coloca no grupo dos que NÃO. Dê ouvidos e se dedique mais a gente que SIM. Não desperdice energia entregando seu melhor a quem NÃO".

Achei a definição genial. Era o que eu vinha fazendo já há algum tempo, desde que também fui lá embaixo e, com uma vela, econtrei o interruptor de luz. Mas permaneço um tanto brucutu, porque jamais teria conseguido teorizar dessa forma bonita, poética e sensível assim, que é o jeito que ela sempre empacota os raciocínios e sentimentos.

Me pus a pensar muito sobre o tema depois disso: Gente que SIM e gente que NÃO. Com o tempo, você se dá conta de que cuidar de si mesmo também significa cuidar melhor de seu entorno. E de quem se aproxima de você. Porque não adianta você tomar conta de si se deixa o entorno uma droga. Pessoas que NÃO geralmente se encarregam disso, de deixar tudo uma droga. Ainda que não se dêem conta e ainda que você mesmo nem se dê conta.

Porque pessoas que NÃO são astutas. Elas chegam, batem na tua porta com um prato de biscoitos caseiros recém feitos, pedem para entrar. E quando você vê, se instalam ali e tomam conta de sua vida, de seu tempo, de seus ouvidos, de sua generosidade em ter aberto a porta.

Pessoas que NÃO são cheias de NÃOs. NÃO sabem ouvir. NÃO querem ser pessoas melhores porque se julgam prontas. NÃO sabem ser generosas. NÃO se colocam na pele do outro.

Os que NÃO esgotam a tua paciência de tanto que falam. Sempre de seus problemas. Que são, claro, os mais importantes. E dos seus logros. E das suas conquistas. Sempre dos seus, seus, seus.

Pessoas que NÃO têm ojeriza de estarem sozinhas. Porque, né, não desceram. E descer as escadas pressupõe um pouco de solidão e resguardo, porque a escada que te leva ao porão é estreita e só tu tem a chave. Para os que NÃO pouco importa a qualidade. Importa a quantidade. Importa a audiência. Importa o grito histérico. Os que NÃO tem horror a silêncio porque podem ouvir o diabo, aquele mesmo, que está logo ali embaixo e a quem têm medo de olhar no rosto.

Os que NÃO tem muito pouco a aportar. Mas fingem bem, pretendendo-se inteligentes. Os que NÃO sempre vão te deixar na mão. Mas fingem bem, pretendendo-se camaradas. Os que NÃO jamais te escutam. Mas fingem bem, dizendo que o tímido é você, que nunca fala nada.

Os que NÃO, por jamais escutar os outros, ficam sempre repetindo, repetindo e repetindo-se. Gente do NÃO é chata pra caralho. É por isso que gente que NÃO tem que ter o teu NÃO de volta.

É preciso fechar os ouvidos a tanta bobagem que falam. A tanta merda que escrevem. Gente que fala o tempo todo pelos cotovelos e não entende o que é um silêncio é gente que NÃO.

Merecem teu respeito, porque gente que NÃO tem pouca maturidade emocional. Mas você tem que saber impor limites, riscar o chão, dar pouca importância e jamais tomar para si os problemas que não problemas de gente que NÃO.

Você precisa deixar entrar um monte de gente que NÃO na tua vida para dar valor aos teus que SIM. Isso é respeito contigo mesmo e isso é cultivar o teu entorno.

Nem que, no fim das contas, sejam apenas meia dúzia de gentes. Daquelas que te entendem, que falam tua língua (não necessariamente teu idioma), que estão no teu time. Quem, enfim, é da tua laia. E quem nao é. Assim de simples. É bom que, neste cultivo, te sobre algo como uma dúzia e não um estádio inteiro de pessoas. Com uma dúzia, tu forma um time. Com um estádio inteiro tu forma uma multidão sem rosto.

O que pode soar como arrogância, dividir entre os que SIM e os que NÃO, nada mais é do que um exercício de humanidade. Se não refletíssemos sobre nossas vidas, se não nos avaliássemos, se não quiséssemos nos entender, se não viajássemos para dentro de nós mesmos tentando descobrir quem somos, melhor que ficássemos na selva vivendo como bicho, que deve ser muito mais fácil, obrigado.

Por isso é um dever nosso descer, degrau a degrau. Acender as luzes. Olhar os fantasmas. Ver o diabo passeando de bicicleta. Nem que depois a gente volte a apagá-las. Porque uma vez que você sabe o que tem lá embaixo, percebe que "Okay, isso nao é bonito, mas isso tampouco é fim do mundo. Já via tua cara e descobri que tu não passa de um fantasminha idiota e bobo. Nhé!". E volta para a cama e dorme melhor.

Quando você entra nesse processo de descobrir-se, acaba atraindo e reconhecendo ao seu entorno quem vale a pena escutar, com vale a pena "viajar", a quem vale a pena se abrir, com quem vale trocar experiências. Tu te reconhece, enfim, numa tarde de sol, em gente como ela, que é gente que SIM.


Monday, July 18, 2011

Marrocos em fotos

Na Europa é muito comum você se topar com ruínas. Estive em várias delas. E quem nunca se viu a si mesmo tranformado em uma ruína alguma vez na vida, né (mimimi, mas isso é assunto para outra história). Nunca, porém, eu havia estado em uma ruína tão recente, de onde ainda saía calor.

Aqui é a parte de fora do bar. Anwar, o chileno, aproveitou para fazer umas imagens para um programa da Telemadrid.



Aqui é a parte de dentro. Os doces ainda estavam no balcão.


Mas o cenário não era de tristeza. Pelo contrário, a vida seguia seu rumo normal. Um pouco das cores (e sabores) sobre os quais falava. Os cheiros, estes não dá para transmitir.


Por falar em sabores...



Cinema, bem pouco hollywoodiano.



Mais comida. E sucos. E cigarros, porque pode.



Vicky, a camela que nos levou a dar voltas no deserto, e seus bebês.


O arco íris dando um pouco de cor, esperança e imprimindo um tanto de ironia ao cenário.

Voltar aos anos 70.



Banheiros públicos.
Curiosidades...

Mesquita.

Monday, July 11, 2011

Mistérios - de cá e de lá

O chileno se adianta do grupo e pergunta se preferimos dentro ou fora. Eu digo logo que prefiro é fora.

Estamos em Marrakesh, uma das cidades mais importantes do Marrocos. Somos seis amigos. Viemos para passar o feriadão de 02 de maio, segunda-feira, aniversário de Madrid. Um bar foi explodido dois dias antes de chegarmos. O atentado, que matou dezesseis pessoas, não ocorreu num lugar qualquer, mas no Café Arganda. Este bar era o prédio mais marcante da praça principal da cidade. Ele seria a pinta do rosto, se estivéssemos falando de Marilyn Monroe. Ou os lábios, se falássemos de Angelina Jolie.

Recém chegados à cidade, queríamos tomar o café da manhã. Vamos a este bar que fica ao lado do Arganda, agora todo em ruína. Dificilmente outro atentado aconteceria de novo. Mas, se por acaso ocorresse, seria mais provável colocarem uma bomba DENTRO de um bar, para matar mais gente (duhhh), do que no terraço. Por isso eu, todo nervos, sou o primeiro a responder: "Fora. Vamos tomar o café aqui fora, gente! Tá fresquinho e vai ter bolo!".

Não. Eles preferem entrar. Eu acompanho. Que se é para voar pelos ares, que seja todo mundo xunto.

O lugar é escuro e parece meio sujo. Acho que é porque algumas pessoas estão fumando ali dentro. No Marrocos pode.

O café, preto, estava incrível. Os croissants, ainda melhores. Repetimos. O café e o croissant. Que boa herança deixaram os franceses por essas bandas, penso, enquanto com a boca mastigo e, com os olhos, monitoro o bar porque tenho absoluta certeza de que o homem à minha direita leva uma bomba na sacola. Cer-te-za.

Entrar num país árabe, tenha ele passado por um atentado ou não, te deixa um pouco com essa sensação de desconfiança e paranoia o tempo todo. A quantidade de mistérios, fantasias e idiossincrasias que a cultura islâmica esconde levam a isso. Ao lado da desconfiança, porém, também há o deslumbramento e a curiosidade de querer entender melhor. Pode? Não pode? Jura que aqui é assim?

A língua é escrita em letras que para nós não fazem qualquer sentido. Mas isso nem de longe é o mais indecifrável por aí. Tudo o é.

As leis, que se misturam com dogmas religiosos, são estranhíssimas. E você nunca sabe quando está por burlar uma. Eu tinha a impressão pecar a cada dez passos que dava. Ora porque estava rindo (as pessoas não riem muito por ali). Ora porque estava abraçado a alguma das meninas do grupo (homem não pode tocar em mulher). E ora porque, às cinco da tarde, enquanto a cidade inteira se ajoelhava em direção a Meca para rezar, eu estava sorvendo um picolé (outra boa herança dos franceses).

A praca central, Djaama El Fna, calma durante a manhã, vira uma espécie de mercado durante a tarde. Ao lado das barracas de sucos de laranja, alguém encanta uma naja com uma flauta. O que tudo bem. O que é uma naja quando, logo adiante, o ser humano está com NOVE cobras enroladas pelo corpo? Justo ao lado de um senhor que quer me vender um macaco. E de uma senhora com véu da cabeça aos pés, que desenha tatuagens de henna por dez euros.

No mercado souk todos querem nos vender de tudo. Nada tem preço. O valor das coisas, eles dizem de acordo com a tua cara e tu o leva pelo preço que consegue barganhar. A regra não-dita é que o preço justo geralmente fica a um terço do valor que o vendedor cantou pela primeira vez.

Nos assediam muito, os marroquinos. Todos que falamos castelhano somos espanhóis e nos chamamos Antonio. Todas que falam, são espanholas. E viram Maria. Ou bem somos de Madrid ou bem de Barcelona. Não cogitam outro país ou cidade. É o jeito que eles têm para simplificar as coisas. Acho que o mundo árabe tem um pouco disso: de simplificar, carimbar e botar tudo em dois balaios, não importando-se muito com as inconsistências ou individualidades. Ou é isso ou é aquilo. Cara ou coroa. Antonios e Marias. Madrilenhos ou barceloneses. E ponto.

As cores e os sabores de Marrakesh são cores e sabores até então desconhecidos para nós. A variedade de tons de marrom da cidade e das casas são infinitos e contrastam com o colorido das sandálias berberes e dos tecidos. A comida é cozida em panelas que parecem uma lâmpada de aladim. Só que redonda.

Saio para fotografar com José e descobrimos a parte do mercado não-turística. Aquela onde comem os locais. O cuscuz marroquino, que desfrutamos divinamente em um restaurante, ali é servido sem muita cerimônia. Comem com as mãos. Comem ao lado de gatos e cães. Comem sentados em latões. E tudo o que comem vem metido no meio de um pedaço de pão.

E há, claro, os cheiros. Que, dos sentidos, é o que mais marca. O cheiro das olivas. O cheiro da sujeira misturada com pó. O cheiro da chuva misturada com o barro. O cheiro do bafo das tendas de roupa. O cheiro do couro dos sapatos barberes que levarei para casa. O cheiro do suco fresco. O cheiro dos chás. Aprendam, crianças, o lugar onde a gente guarda as memórias dos amores e dos lugares não é (lamento informar) o coração, ou o cérebro ou os olhos - é o nariz. Olha que sem graça.

A diversidade de tudo o que vivemos nos três dias foi uma coisa meio surreal para caber em um texto. Vimos uma manifestação contra os atentados e de apoio ao rei. Entramos em um bar onde não havia banheiro para mulheres, já que elas não podem entrar lá (embora tenhamos entrado com duas). Criamos, os seis, um enredo de filme de suspense conversando à noite, no quarto do hotel, porque quando te dão uma realidade engessada tudo o que tu tem para contar é com a fantasia. Nos embriagamos sorrateiros com cerveja conseguida clandestinamente, porque no país todo e qualquer álcool é proibido.

Três dias depois, voltamos para uma realidade mais fácil, em que seguimos sendo Giseles, Gracielas, Josés e Marcos. Em que caminhar por praças não significa tropeçar em alguém amestrando uma naja. Em que tomar uma cerveja não implica entrar sorrateiramente por portas escusas. Depois de apenas três dias, isso sim é que me parecia bastante estranho. Porque tudo é uma questão de onde se olha. E o olhar nada mais que se acostuma ao lugar onde se está.

Do momento em que pisamos naquele bar para tomar café com croissant, até o momento em que deixamos o país, vivemos tanta coisa inédita que nos deu a impressão de ter ficado no Marrocos durante semanas. Bobagem. Só agora é que me dou conta da inversão: o Marrocos é que ficou dentro da gente.

Monday, May 23, 2011

"O acaso vai me proteger" (Final)

Fizemos uma última tentativa de buscar carro em Málaga. A ideia seria ir até Cartagena e passar o fim de semana de Páscoa com a família de Maria, uma espanhola comparte apartamento com um amigo que viajava comigo.

Fomos às lojas de aluguel de carro na estação de busón. Esgotado. Nas lojas da estação de trem. Esgotado. Na puta que pariu. Esgotado. Meio que desistimos. Fomos para uma fila uber gigante para resolver tudo com passagens de ônibus. Queria me matar a ter que esperar tanto, então fui comprar um sorvete. Daí decidimos dar mais uma volta e tentar de novo na Hertz, porque a mulher pediu para passar lá mais tarde, por se algum acaso alguém devolvesse um carro. Fomos. Eu intermediei a conversa.

- Oiam.
- Oiam.
- Vim ver se chegou algum carro aqui pra alugar.
(eu, com uma mochila gigante nas costas e, Cornetto terminado, com a boca empapada de chocolate)

- Então... chegou um carro - ela me olha, baixa os óculos e conclui - Mas acho que nao é para vocês. É um MiniCooper.

Para mim, que só sei distinguir carros por meio de suas cores (não faço ideia de nomes e marcas) nao soou nada. Eu só queria um carrinho qualquer, uma coisiiiiinha para a gente brincar de road trip um pouquinho. Fiquei esperando ela justificar qual era o problema com um MiniCooper, gente. Como não dizia nada, perguntei.

- Ele é pequeno demais? Não cabe, moca? Três pessoas dentro?

- Caber, cabe. Mas ele é muito caro - me explica, de novo dando uma olhada de cima a baixo.

Me tirou pra pobretão pela minha aparência, gata? Posso não estar tão limpo, mas tampouco sou tão pobre. Perguntei:

- Quanto?
- 500 euros para três dias.

Uh-la-la. Cagalho!!! E as pessoas pagam isso para alugar um carro? Não é melhor logo comprar um helicóptero? Ou alugar um palhaço para te fazer dar risada? Investir numa criança carente em África? Ela me explica de novo:

- É por causa da semana santa. Está tudo muito mais caro. E este carro, enfim, é um Mini Cooper.

Ai, por favor, que pira bizarra é essa com a porra do Mini Cooper! Gente, é SÓ UM CARRO! Quer saber? Eu e meus amigos viramos as costas para ir embora. Porque, né, não preciso disso para ser feliz. Há Cornettos em todas as partes.

No que a gente virou as costas para ir embora, ela chama de volta.

- Chicos!
Viramos a cabeca. Ela coça o queixo. Dá uma olhada no computador. Bom. Eram cinco da tarde de quinta feira Santa. O escritório iria fechar dali a pouco e só abriria na segunda. O Mini cooper ficaria ocioso. Isso ela nos explicou, antes de disparar:

- Se vocês quiserem, eu faço para vocês o Mini Cooper pelo valor de um carro popular. E pagamos três dias, mas conseguimos ficar quatro, porque no sábado o escritório estaria fechado. Devolvemos no domingo.

PAM. Para mim, qualquer fusca estaria valendo. Mas terminamos passando quatro dias deslizando pela Andaluzia com um BMW. Acordando em um pueblo, almoçando em outro. E dormindo num terceiro. Deixando o acaso, mais uma vez, nos guiar. Porque havíamos aprendido, de uma vez por todas, que ele não só nos protege, como também nos favorece.

* Nosso Mini Cooper guti-guti.

Bom, eu não tenho tido, como se pode ver, comprometimento para escrever as histórias que tenho vivido por aqui. Nao culpo a "falta de tempo" porque tempo a gente pode achar para tudo. Falta de tempo é desculpa para a sacanagem. Não tive o comprometimento de contá-las. Ponto. Tentarei ter.

Mas, enfim, por causa disso as coisas ficam velhas muito rápido. Depois da sensacional viagem pela Andaluzia fiz uma viagem pelo Marrocos (dois dias depois de um atentado de bomba no centro de Marrakech, escrevendo um roteiro de filme de suspense com os colegas e cobrindo um protesto árabe), tinha marcada uma viagem a Coimbra e Porto, em Portugal (mas perdi o voo porque adentrei a noite anterior na fubangagem), fiz uma road trip pela região de Asturias (tivemos que andar em ponto morto, morro abaixo, em neblina forte, sem viv'alma na estrada, numa sexta-feira 13, go figure, para nao ficar sem gasolina) e passei o último fim de semana em Dublin, na Irlanda.

Amanhã viajo a Cáceres para fazer uma história, sábado recebo visitas preciosas e no outro fim de semana vou para a Holanda.

Então assim.

Sem condições de contar tudo num tirón. Vou postando as coisas quando eu conseguir.

"Vivir para contarla", é o título de um livro de Gabriel García Marquez. Agora estou no período de viver as coisas. Depois as conto.

Wednesday, May 11, 2011

"O acaso vai me proteger..." (parte II)

Para sair de Cádiz eu realizei um fetiche que nove entre dez viajantes tem. Te conto.

No dia em que decidimos seguir viaxem, deixamos minha amiga sevillana na rodoviária. Quando ela embarcou, fomos a uma loja de carros alugar um. A ideia era sair dali e ir até Málaga pela "Carretera del Mediterraneo", que começa em Cádiz e termina em Barcelona. Você faz todo o trajeto tendo ao seu lado esquerdo o Mar Mediterrâneo. Belo, né? Mas big, big fail. Não deu. Não havia mais nem sequer charretes puxadas por burros para alugar.

A outra opção era ir até Málaga de ônibus. Mas a viagem duraria a noite inteira. E ainda eram quatro da tarde. Daí eu não sei ao certo quem sugeriu, mas sei que logo a ideia foi aceita por todos: decidimos ir até o guichê e comprar a passagem para o PRIMEIRO ônibus que estivesse saindo, para QUALQUER lugar que fosse. E assim foi. Dez minutos depois, estávamos a caminho de Algeciras (oi?), uma cidade sobre a qual jamais algum de nós ouviu falar na vida.

Chegar a uma estação e comprar um bilhete para qualquer lugar: obrigado, Sr. Acaso, porque tenho um fetiche a menos para realizar nesta vida.

******
Mas agir por ímpeto e viver aventurosamente te coloca também precalços no caminho. O sul da Espanha é mais pobre do que o resto do país. Então as cidades costumam ser mais simpronas e mais caipironas (o que, para mim significa mais autenticidade, então adoro) e extremamente belas, com uma influência árabe na arquitetura. Mas descobrimos que Algeciras é um horror.


Feia como o diabo. Se não existe concurso de cidade mais feia é porque já se sabe que Algeciras ganharia, tipo assim, o primeiro lugar. Sempre. Nem adianta competir. Pobrezinha.

Estando aí, porém, fizemos algumas descobertas interessantes. Soubemos, por exemplo, que é o ponto mais ao sul da Espanha. Está situada a só 14 quilômetros da costa africana. Saem barcos a cada vinte minutos para Tanger e também para Ceuta. Aliás, as placas na cidade são bilíngues: espanhol e árabe.

(Parênteses: você sabia que a Espanha tem duas cidades autônomas na África, no cantinho do Marrocos? Uma é Ceuta e a outra é Mejilla. Pois é. Durma mais sossegado agora que sabes).

Andando pelo porto fomos abordados diversas vezes por representantes de agências de turismo querendo nos vender passagem de barco para o Marrocos. A gente se entreolhou num "será? que vamos? hein?". Mas estávamos viajando só com a tarjeta de identidade espanhola. Sem passaporte, havia problemas legais para pegar... ahm... um barco e ir para a... ahm... África.

Sempre há a possibilidade de se nadar 14 quilômetros de mar, néam. Mas super não era o caso.
Por sorte, a cidade dos hogogues fica no meio do caminho entre Cádiz e Málaga. Então, logo depois de comermos um kebab estranho no meio do caminho, embarcamos de novo para Málaga, terra do pintor Pablo Picasso.


Novamente uma praia para ficar de bem com o mar. Passamos uma tarde ótima na Praia de Malagueta (pimenta, alguém?). Meus parceiros de viagem estavam sensacionais porque ninguém impunha nada a ninguém e todos eram extremamente tranquilos. Um de meus amigos de viagem volta a meia perdia-se em seu mundo interior, jogando conchas ao mar enquanto ouvia música. Outro, alternava momentos de silêncio com uas tiradas ora irônicas, ora debochadas e quase sempre divertidas.

E eu, néam, estava lá quietinho, regozijando-me com a descoberta do Bacardi Breezer de Melancia. E de limão. E de lima. E de laranja. Depois, hic, fomos ao museu do Pablo Picasso (achei que seria uma desfeita não ir). E ainda tivemos tempo para assistir a procissão de Semana Santa.

(a praia-que-tinha-uma-parte-com-grama e os meu Bacardi Breezer)

Gente, é aqui eu conto um pouco da pira da Semana Santa e das procissões? Então vamos lá. Vai ser bem breve, mas é necessário que você saiba sobre isso. Porque é, tipo, um evento importante na Espanha. Veja você que não tenho exatamente a lata de quem corre atrás de romarias com um chicote para me penitenciar. Mas a coisa aqui é tão forte que vira um evento em si.

Sabe escolas de samba durante o carnaval? Que cada bairro tem a sua escola, ou seu bloco de carnaval? Então , vire ao avesso em termos de objetivo, transforme os blocos carnavalescos em grupos de procissão. E, pronto, aí está o resumo. O povo faz uma grande festa, desfilando com seus carros alegóricos (digo, suas estátuas gigantes de Jesus, Maria, José, apóstolos e afins, trabalhadas em flores e carregadas pelos chamados "costaleros").

O carregamento das estátuas sempre é introduzido por uma comissão de frente (digo, pelo grupo dos penitentes). São os chamados nazarenos e penitentes, que vão vestidos com túnicas e capuzes bizarros. Pausa para o capuz: mêdoam! A primeira vez que vi fiquei bem impressionado. Parece uma coisa toda trabalhada em motivos Ku Klux Klan. Nas primeiras procissoes dava medo de ver (fotos abaixo).

Achava que eles iam correr atrás das pessoas para bater nelas. Mas depois me acostumei. São do bem. Ligeiramente mórbidos. Mas do bem. Eles carregam velas vermelhas gigantes, que vão derretendo ao longo do caminho. A cera que cai sobre a túnica dá a impressao de que é sangue. (arrepios de medo)

Enquanto passa a virgem, as pessoas gritam "virgem, sua linda!", "guapa!", mandam beijos, acenam. Uma cousa que nunca vi nada igual. E se por acaso o tempo ruim impede a saída das procissões, como aconteceu em algumas cidades, eles sentam na rua. E todos chora. Todos berra. Todos fica triste. Nhóum. Porque, igual que o carnaval, eles se preparam, ensaiam, enfeitam as estátuas, se organizam muitos meses antes de sair a procissão. E no seu grande momento do ano, chove? Porra, Sao Pedro! Em todas as cidades existem as procissóes, durante todos os dias da semana santa. Inclusive nas mais pequenas.

Mais uma vez, o acaso nos caiu muito bem. Mas ainda era cedo para desistir de percorrer o Mediterrâneo de carro. Jogamos para o universo o problema, porque às vezes é isso que te sobra: jogar o problema pelo ar para ver o que volta. E tentamos uma vez mais. (continuo depois)

Os penitentes e nazarenos

A santa e os 'costaleros'




O penitente



Wednesday, May 4, 2011

"O acaso vai me proteger..." (parte I)

Eu já sabia com quem iria viajar. O que eu não sabia era para onde.

Aqui na Espanha as pessoas fazem o feriado de Semana Santa ser uma espécie de mini-férias: todo mundo folga a semana INTEIRA antes da Páscoa. Aham, de segunda a sexta. E, sim, amigos xórnalistas, inclusive nós. Meu abraço camarada a você que fez plantão. Eu fui viajar.


Rolou uma grande dúvida em relação ao roteiro. Como as passagens para outros países estavam saindo ao preço de um rim, decidimos que ficaríamos na Espanha. Escolhemos ir para a região da Andaluzia, onde as comemorações de Semana Santa são as mais típicas.

Fizemos um esboço de roteiro, que incluía algumas cidades bacanas, incluía fazer um trecho em carro e incluía destinar umas 24 horas ao acaso. Olha que legal: dos oito dias que viajaríamos, um deles não planejaríamos. Definimos que seria a quarta-feira antes da Páscoa. Neste dia poderíamos entrar numa cidade fora do roteiro, poderíamos ficar de boa na praia, poderíamos qualquer coisa.

Pois bem. A teoria foi linda e ótima, embora um tanto irônica (pode, Arnaldo? "planejar" um acaso? Nao é contradição?). Mas na hora do servicinho sujo, como fazer reserva de hotéis, passagens e carro, bateu preguicinha (e geralmente já havia batido o vinho, uma vez que os encontros para combinar eram decididos com jantar ou em bar). Daí que deu sexta de noite e não tínhamos nada: nem passagem, nem hotel, nem carro, nem roteiro. Nem um guia de viagem, veja você.

Ficamos com a questão: vamos mesmo assim? Tão desapegados dessa maneira? Se optássemos pelo sim, o tal “dia do acaso” que destinaríamos para a viagem, se transformaria numa viagem inteira: oito dias. Será?? Em plena Semana Santa, período do ano em que a região mais recebe turistas? Tudo lotado e esgotado?

Meu beijo para voce que fez as malas duas horas antes de sair para a rodoviária para pegar um ônibus para Cádiz. Deu-se início, assim, ao que apelidamos de "Viagem do Acaso".

Primeiro obstáculo que nos impôs uma viagem de liberdades: as passagens de ônibus a Cádiz haviam se esgotado. As de trem já estavam esgotadas há milênios. Daí que tivemos que tomar um busão para Sevilla (desta vez tirei os tênis e enfiei-os dentro da mochila e isso se chama aprender com os erros, meus filhos).

Chegamos seis da matina a Sevilla. Como meu contato na cidade estava dormindo, nem nos preocupamos em ligar. Fomos para uma outra rodoviária pegar um busão local. Em duas horas mais chegamos a Cádiz.

A cidade é uma das últimas (e uma das poucas) banhadas pelo Oceano Atlântico na Espanha. Um pouco mais adiante tem o Estreito de Gilbraltar e aí começa o Mediterrâneo.

Chegamos à cidade muito cedo e, caminhando para reconhecer terreno, encontrmos uma pousada digna. Nos recebeu Don Miguel, um senhor que comia MEIO prato de bolachas derretidas no leite, enquanto o OUTRO meio prato ele cuspia ao falar. Don Miguel nos deixou num quarto ótimo no milésimo andar da pensão sem elevador. Quarto para três pessoas não havia, então nos deu um duplo e um individual, pelo preço de um triple. O acaso nos havia sido generoso. Eram as últimas vagas do lugar. Depois disso, esgotou.

Passamos o dia de domingo inteiro na praia e parte da segunda-feira, quando minha amiga de Sevilla nos foi encontrar, também. Apesar do vento, fez um sol bom. E pela primeira vez vi um entardecer no Oceano Atlântico. O mesmo oceano que banha meu país, só que visto do outro lado. Com a diferenca de que aqui há mais espaço para os silêncios.

(por do sol em Cadiz. 18 de abril de 2011)




Saturday, April 16, 2011

El corazón que a Triana va, nunca volverá, Sevilla

Eu estava querendo colo. Entao decidi buscá-lo na casa dela, que vive ao sul da España na cidade de Sevilla, capital do estado da Andalucía. A gente combinou de passar um fim de semana nosso. Eu não fazia sequer questão de visitar pontos turísticos da cidade. Colo. Conversa. Ficar de bobeira, coisa que há anos sabemos fazer tão bem.


Mas se somaram a mim um amigo gaúcho que faz um Máster em Madrid e duas amigas do meu curso. Eles todos iam ficar num hotel. E eu, na casa dela. Faríamos coisas em conjunto, mas eu tinha o direito e a liberdade de sumir quando achasse que fosse necessário. Todos se puseram de acordo (adoro determinar as regras do jogo antes da coisa acontecer).


Apesar de existir um trem bala que liga os 550 quilometros entre Madrid e Sevilla em duas horas e meia, o preço da brincadeira é caro. Fomos, então de busão noturno, que chegaria em seis horas, saindo na sexta à meia noite.


Entrei no ônibus e faco o que sempre faço em qualquer ônibus ou avião quando uma viagem é um pouco mais longa: tirei os tenis (não entremos em detalhes escatológicos, mas eu nao.tenho.chulé. E ainda por cima uso talco).


O busão chegou a Sevilla no sábado às seis da manhã. Ainda era escuro e fazia um pouco de frio. Acordei. De mau humor, claro, que é o único jeito que sei acordar. Apalpei o chão para pegar o tênis. Calcei o pé direito. Apalpei de novo para pegar o pé esquerdo. E... hei, cadê o pé esquerdo?


Esperei as pessoas terminarem de descer do busão e procurei por baixo de todos os assentos. Nada. Inferno. Alguém tentou roubar meu par de tênis. E levou só um pé.


Me diz o puto do motorista: “Se levasse os tênis nos pés, nao te teriam roubado!”


Não me incomodou que me roubassem o par de tênis. O que me deixou puto foi a zica do ladrão. Porra, que cacete de ladrao azarado, hein? Só deu tempo para pegar um? Quero mais dignidade ao ser roubado: pelo menos um malandro que leve os dois. Levar só o pé esquerdo é muito azar. Não me conformo, a não ser que ele fosse um aleijado que tivesse apenas um pé. Da próxima vez exijo ladrões mais profissionais, por favor.


Como passaríamos apenas um fim de semana, a ninguém lhe ocorreu de levar um par de tênis extra, óbvio. Assim que, em plenas seis da matina de um sábado, eu desembarquei em Sevilha com pé no chão. Literalmente. Preferi tirar o tênis que me havia sobrado para nivelar os meus dois pés e não parecer um manco de perna curta andando por aí.


Levei na esportiva, porque sou ótimo, mas estava era bem puto. E veja que legal: ninguém havia reservado hotel para onde pudéssemos ir para descansar e deixar as coisas.

Estávamos na rua! Minha amiga sairia do trampo somente às onze da matina.

A decisão racional nos fez pegar um táxi e pedir para que nos levasse a uma zona central da cidade. Assim, poderíamos buscar um hotel.


O tal do motorista balbuciava coisas. Nunca achei que fosse escrever a palavra balbuciar num texto. Mas era o que fazia, porque o sotaque andaluz é isso: um balbúcio. Impraticável, inclusive para as gurias, que tem o espanhol como língua nativa, mas não entenderam porra nenhuma do que o dito cujo dizia. Certo que deve ter falado algo como “Olha só, vou fazer um caminho mais longo e levá-los para uma favelinha, okay?”


Porque, né, fomos parar em Macarena: um distrito ermíssimo, escuríssimo e cheio de gente bêbada na rua, em plenas seis da manhã.


E eu de meias.


Como eu sou do tipo que aceita o surreal, decidi que ia levar na esportiva e ver até onde de bizarro uma situação assim pode chegar.


Fomos comer para ver se amanhecia. Entramos num bar e pedimos a carta. Eu não comi e nem bebi nada porque estava ocupado fazendo um esquema mental: em primeiro lugar, achar um hotel. Em segundo lugar, descansar até que as lojas abrissem. Em terceiro lugar, comprar um tênis. Em terceiro, encontrar minha amiga.


Veja você a quantidade de problemas que eu tihnha para resolver - e não havia sequer amanhecido. Saímos do bar e fomos andando pra sempre pela cidade. O que me diz você de um belo pé sem chulé exposto ao frio da rua sevillana? (acho um desperdício)


O resumo é o seguinte. Todos os hotéis da cidade estavam ocupados porque havia chegado a primavera e os turistas haviam lotado a cidade para ver as flores (oi?) De tanto andar, encontramos o único hotel em que havia UM quarto disponível. Como as lojas só abriam dez da manhã, decidimos ficar por ali e tirar um cochilo. Tínhamos a nossa disposição apenas UMA cama de casal. Para quatro pessoas.

Você sabe como se resolve isso, né? Caso um dia te acontecer, eu te dou a receita: dois na cama e dois no cháo, num ninho montado com cobertas e travesseiros. Super confortável, te garanto eu, que fiquei no chão e preguei no sono profundo. Acordamos umas dez e meia da manhã, quando o El Corte Ingés já estava de portas abertas. No que saí para comprar um tenis novo.

Adoro tênis. Tudo o que eu precisava era uma desculpa para entrar numa boa loja e me comprar um novo par. O que de facto o fiz: sou possuidor de um novo tênis azul e amarelo, bonito, confortável.


Portanto, pelo valor, a perda do meu tênis não era uma questão. O que sim chateou foi a incomodação que causou. E mais. Sua perda teve um valor simbólico (entro agora numa egotrip bizarra e cifrada. Para quem não curte, o texto termina aqui, beijos e até a próxima. Para os stalkers de plantão, continuemos).


Eu tinha um valor afetivo com o tênis que me surrupiaram. Foi o primeiro que usei quando fiz meu mochilão pela Europa. E ele andou bem desde então. Caminhou pelos alpes da França. Pediu carona na Nova Zelândia. Cruzou povoados no interior da China. Subiu o Machu Picchu. Ele carregava um pouco de cada lugar por onde andei nesses últimos anos. E me havia sido presenteado por alguém que um dia entendeu a minha fúria de conhecer os lugares e suas gentes.


Engraçado, penso eu. Havia me desfeito de tanta coisa abstrata antes de vir, mas guardava pequenos relicários inúteis, que agora vejo-os ir embora dessa maneira surreal e tragicômica. O que importa é o que você viveu. Não o que você leva como troféu. Agarrar-se a pequenos detalhes físicos desimportantes é bobagem porque eles podem terminar assim: sendo jogados numa lata de lixo da Andalucía. Por alguém qualquer.

Ou calçando um perneta.

Thursday, March 31, 2011

Peluquería de caballeros. Aspas.

Semana passada fui a uma coletiva de imprensa num rincão de Madrid. Terminou na hora do almoço e decidi que comeria algo pelas redondezas antes de voltar para o jornal. Mas ao invés de fazer um longo almoço, pensei, por que não comer um sanduíche e aproveitar o tempo da siesta para cortar o cabelo? (que naquelas alturas podia ser chamado de "juba" sem nenhuma ofensa).

Andei por alguns quarteirões do bairro à procura de uma peluquería. Passei na frente de uma das franquias de uma rede daqui chamada Spejo's. É mais ou menos a Webjet dos cabelereiros. Cobram 9 euros para deixar teu cabelo igual a um arbusto. Low cost demais na minha opinião, com todo o respeito a quem anda de Webjet ou coloca a cabeça a risco no Spejo's.

Mas a outra opção ao Spejo's são as navalhas afiadas dos barbeiros de bigode, toalha nas costas e 150 anos de profissão. Expor minha jugular na cadeira do barbeiro? Eu passo.

Andei pelo bairro até que eu vi esse lugar que dizia "peluquería de caballeros". Achei o cúmulo da boa formação: um lugar onde há gente treinada em cortes só para homens! Aprovei. Até porque com gente especializada eu poderia dar um novo ar para minha cabeleira, que há dez anos eu corto do mesmo jeito: máquina três do lado, dois dedos de cabelo em cima - e, pronto, já estou novo.

Espiei dentro. Vi um lugar bem arrumado e, olha que legal, com cabines! Eu achei muito bacana oferecerem espaços individuais com paredes e porta fechada para cortar o cabelo, sabe? Higiênico e privé: ninguém precisa te ver enquanto teu topete virou uma franja molhada colada à testa. Peguei minha vibe Roberto Justus e entrei. Nem vi preço nem nada.

Uma recepcionista me atendeu com um sorriso e uma simpatia infinita, algo raro na Espanha quando se trata de atedimento ao cliente:

- Vou tirar sua mochila para ficar mais a vontade. Que tal? - me sugere a mulher.
(Tire, sim, claro. Tire já! Adoro um paparico)

- E não quer tirar a jaqueta também? Temos cabides aqui!! - ela continua.
(Cabides? Hum, toda uma infraestrutura para atender a clientela: curto muito. Gente, ESTE é o lugar onde eu devo cortar meu cabelo com dignidade)

- Você tem preferência por alguma de nossas profissionais?
(Não porque, né, nunca havia botado os pés no lugar. Achei a pergunta meio rara. Quando eu vou ter meu cabelo lavado, mouza?)


- Não. É minha primeira vez - respondi - Qualquer uma delas está ótimo. Mas me consegue uma criativa, por favor, porque estou pensando em fazer umas coisas diferentes e queria ouvir ideias.

A mulher sorri ainda mais. Sugere-me Ana. Criativíssima, segundo ela. Ótima em inventar coisas.

- Você vai passar muito bem com ela. Como você quer? Completo?
(Como assim 'completo'? Lavar, cortar e pentear? É isso, Arnaldo? Supus que fosse, porque é mais ou menos essas coisas que se busca num cabeleleiro, né. Achei estranho a recepcionista - e não a cabelereira - perguntar como eu queria, mas já fui logo explicando como funciona o meu cabelo)

- Quero completo. Eu geralmente peço para deixar dois dedos em cima, mas queria tentar uma coisa diferente, como te falei.

Ela me diz que, claro, sem problemas, eu iria adorar. Pede, então, para que eu tire a roupa, vista um quimono e entre numa das cabines enquanto ela pega alguns óleos e chama Ana.

Tirar a roupa, vestir um quimono e trazer os óleos? PAM!!!

A minha mente rebobinou dez minutos (a palavra "rebobinar" agora só vale para o cérebro, né?). Juntei as frases que haviam ficado do diálogo: "peluquería para caballero", "preferência por uma de nossas profissionais", "quer completo", "quimono e óleos"! E daí entendi: gente, fui cortar o cabelo num puteiro!

Me pergunto o que que a mulher deve ter pensado quando eu respondi às perguntas sem me dar conta de onde estava: "Me vê uma que seja criativa", "é minha primeira vez" e, suprassumo da vergonha, "geralmente peço para deixar dois dedos em cima".

Eu disse, "olha, me desculpe, quero só mesmo cortar o cabelo. Rola?". Não, não rolava. Tive que cair fora. Mas peguei um cartão, por que nunca se sabe onde você precisará levar uma visita. No dia seguinte resolvi meu problema optando pelo rápido e básico: fui a um Spejo's perto de casa. Máquina 3 do lado e dois dedos em cima.

Thursday, March 24, 2011

A Festa das Fallas

Eu gosto dos rituais e Las Fallas é uma festa cheia deles.

Por isso que entre as coisas que eu não queria deixar de fazer aqui na Espanha era participar da cerimônia. Ou pelo menos de parte dela, porque, né, a festa vai de 15 a 19 de março.

É o maior momento do ano para a comundiade valenciana. Como as regiões espanholas são meio separatistas e autônomas, os madrileños, por exemplo, se importam em nada com a festa. E torcem um pouco o nariz ("ai, nunca fui", "ai, é cheio de gente", "ai, é muito barulho" e outros ai, ai, ais). Ai, ai, ai, quer saber? Eu vou porque tô ligado que isso é inveja dos valencianos e vai ser bótemo.

Sexta-feira saí da minha aula, fui ao aeroporto e, onze da noite eu estava batendo em Valência. Eu e a torcida do Flamengo. Para se ter uma ideia, a cidade de 800 mil habitantes recebe 2 milhões de turistas nessa época.

Chegamos a tempo suficiente para pegar os eventos mais legais, a Nit del Foc e a Nit de la Cremà (as expressões são do dialeto falado em Valencia, uma corruptela do catalão).

A noite de sexta para sábado teve a Nit del Foc, que é uma explosão de fogos artificiais que comecou a uma da manhã e que durou 20 minutos. Mas a festa estendeu-se pela noite até de manhã cedo.

No dia seguinte saímos para ver as tais das fallas propriamente. As fallas consistem em bonecos GIGANTES construídos pelas comunidades de Valência e expostas ao largo da cidade. Gigantes = do tamanho de prédios de vinte andares. Impressionante. Mas, diferente dos carros alegóricos de carnaval (para fazer uma comparação), elas não desfilam pela cidade. Ficam expostas e, no último dia, são queimadas neste outro ato chamado La Nit de la Cremà.

A tradição de se queimar fallas começou para se comemorar a festa de Sao José, no dia 19 de março. Naquela data os marceneiros faziam uma fogueira para festejar seu patrono (Sao José era marceneiro, e madeira faz fogo e hã, hã, hã, pegou o ritual todo?). Aos poucos foram incrementando seus montes de lenha, botando uns adereços, fazendo-os parecer espantalhos. Até se transformarem hoje em dia em monumentos feitos de madeira e isopor ao custo de 150 mil euros cada um.

É uma das coisas mais legais que eu já vi de perto. De perto mesmo. Como as fallas são grandes e largas, o fogo chega muito próximo às casas. Perto dos fios de luz. Perto das árvores. Perto das pessoas. A grande questão é: como a cidade inteira não incendeia! E como a gente conseguiu aguentar o fogo desde tão perto!

Quando eu digo "a gente" é porque estava com outros colegas do curso. Acho que quase metade deles foi.

No domingo foi a vez de deixar a parte não-programada do fim de semana acontecer. Acabamos indo para a praia. Fui com os guris que viajaram comigo e acabamos nos encontrando sem querer com outros colegas - por coincidência e sorte, os que gosto mais. Compramos vinho e fomos botar os pés na areia. Tirei, pela primeira vez, os casacos pesados depois de dois meses de inverno. Foi um bonito jeito de dar as boas vindas à primavera.


A falla e a lua


A falla biba

A falla vencedora, que também é queimada


Multidão


Fogos de artifício


Falla sensual

Falla bebum


Falla vampiro


Uma falla virando cinza